Entre o Real e o Imaginário: Explorando as Fronteiras Psíquicas do Transe, Possessão e Esquizofrenia
- Karla Nascimento
- 9 de out. de 2024
- 3 min de leitura

Uma profunda preocupação em compreender os estados mentais, os fenômenos inconscientes e suas manifestações. Quando comparamos "transe", "possessão" e "esquizofrenia", observamos diferenças fundamentais na sua origem, estrutura psíquica e manifestações externas, ainda que, em alguns casos, possam parecer semelhantes em aspectos superficiais.
1. Transe
O transe é, na perspectiva psicanalítica, um estado de alteração da consciência que pode ser induzido voluntariamente (como em rituais religiosos, hipnose ou práticas meditativas) ou ocorrer de maneira espontânea. Freud, ao investigar os estados hipnóticos, observou que, em um transe, o sujeito pode acessar conteúdos inconscientes de maneira mais fluida e livre, sem as barreiras da repressão.
No transe, o ego se desliga parcialmente da realidade externa, criando um estado de suspensão entre o consciente e o inconsciente, mas o sujeito mantém uma certa ligação com seu núcleo psíquico. A psicanálise vê o transe como uma maneira de acessar conteúdos reprimidos ou lidar com situações de angústia, sem necessariamente romper com a realidade. Freud estudou o transe especialmente no contexto da hipnose, e Lacan avançou essa compreensão ao associá-lo com uma dimensão simbólica do inconsciente.
2. Possessão
A possessão, em um contexto psicanalítico, pode ser vista como uma manifestação arcaica e simbólica do inconsciente. Diferente do transe, que pode ser voluntário, a possessão é experimentada como algo que "vem de fora", como se uma força ou entidade externa tomasse o controle do corpo e da mente do sujeito.
Na psicanálise, pode-se interpretar a possessão como um fenômeno dissociativo, no qual o sujeito, ao lidar com uma grande quantidade de angústia ou de conflitos internos reprimidos, se desconecta de partes do seu eu. Essas partes dissociadas podem ser personificadas em figuras externas (espíritos, demônios, deuses), como uma forma de externalizar e lidar com o que seria intolerável para o ego reconhecer como próprio.
Freud, em seus estudos sobre neurose, destacou que essas formas de dissociação são, na verdade, uma maneira de proteger o sujeito contra o sofrimento psíquico. Assim, a possessão pode ser uma manifestação cultural e simbólica de um fenômeno psicológico profundo, onde o sujeito projeta para o exterior o que não consegue integrar em seu psiquismo.
3. Esquizofrenia
Já a esquizofrenia, por sua vez, é um estado psicótico de natureza clínica e com bases biológicas, mas que também tem uma leitura possível dentro da psicanálise. Freud descreveu os estados psicóticos como uma ruptura significativa do sujeito com a realidade, onde o ego perde sua capacidade de manter a coesão entre o mundo interno e externo.
Para a psicanálise, a esquizofrenia representa uma desintegração profunda do eu, em que o sujeito é incapaz de sustentar os laços simbólicos que organizam a realidade. Lacan contribuiu com essa visão ao postular que a esquizofrenia resulta de uma falha no processo de significação e estruturação simbólica, o que gera uma fragmentação da linguagem e do pensamento. O sujeito esquizofrênico, portanto, não vive um estado transitório como no transe ou na possessão, mas um estado permanente de ruptura com a realidade, onde a organização simbólica que permite a comunicação e a compreensão do mundo está profundamente comprometida.
Diferenças Fundamentais
Transe: um estado de alteração de consciência temporário, com certo grau de controle e acesso ao inconsciente, onde a realidade externa não é completamente negada.
Possessão: um estado dissociativo em que o sujeito sente que algo "externo" tomou controle, projetando seus próprios conflitos psíquicos para fora de si.
Esquizofrenia: um estado de ruptura psicótica permanente, onde o sujeito perde o vínculo com a realidade e com a linguagem simbólica que estrutura o pensamento e a percepção.
Em suma, enquanto o transe e a possessão podem ser vistos como formas de lidar com conflitos psíquicos sem uma ruptura total com a realidade, a esquizofrenia representa uma desorganização mais profunda do eu e da percepção, sendo um estado patológico mais grave. Na visão psicanalítica, esses fenômenos, embora distintos, revelam as complexidades da mente humana ao lidar com as tensões entre o consciente e o inconsciente.



Comentários