Transtorno Dissociativo: A Fragmentação do Eu
- Karla Nascimento
- 2 de out. de 2024
- 3 min de leitura

O transtorno dissociativo é um dos fenômenos mais complexos e intrigantes estudados pela psicanálise. Ele representa uma ruptura na integração das funções psíquicas, como memória, consciência, identidade e percepção. Para a psicanálise, essas manifestações não são meramente sintomas a serem eliminados, mas janelas para entender os processos inconscientes que organizam (e às vezes desorganizam) a mente humana.
O Que É o Transtorno Dissociativo?
O transtorno dissociativo pode se manifestar de várias formas, como amnésia dissociativa, despersonalização (sensação de estar desconectado de si mesmo), desrealização (sensação de que o mundo ao redor não é real) e até o transtorno dissociativo de identidade (anteriormente conhecido como transtorno de múltiplas personalidades). Em todos esses casos, há uma dissociação de aspectos da experiência que normalmente estariam integrados.
Do ponto de vista da psicanálise, a dissociação é uma forma de defesa. Quando o sujeito é confrontado com um trauma intenso ou um conflito emocional que o ego não consegue processar ou lidar, a mente "separa" essa experiência dolorosa, de modo que ela não atinja a consciência. Essa separação pode ser temporária, como em episódios curtos de desrealização, ou mais profunda, como no caso de personalidades dissociadas.
A Dissociação como Defesa Psíquica
Freud, o pai da psicanálise, propôs que as defesas psíquicas são mecanismos que o inconsciente utiliza para proteger o sujeito de angústias insuportáveis. No caso da dissociação, há uma espécie de "corte" na continuidade do eu, onde certas memórias, emoções ou até identidades são recalcadas, ou seja, empurradas para o inconsciente, longe da consciência.
Essas experiências dissociadas podem se manifestar de diferentes maneiras. A amnésia, por exemplo, é uma forma de evitar o confronto direto com uma memória traumática. No caso do transtorno dissociativo de identidade, pode ocorrer a criação de identidades separadas que assumem o controle em momentos diferentes, cada uma contendo aspectos distintos do trauma ou do conflito que o sujeito não consegue integrar como um todo.
Lacan e a Dissociação Simbólica
Jacques Lacan, outro grande expoente da psicanálise, acrescenta à compreensão do transtorno dissociativo a ideia de que esse fenômeno resulta de uma falha na estruturação simbólica da experiência. Segundo Lacan, nossa realidade psíquica é organizada por meio de símbolos, que nos permitem entender e nos relacionar com o mundo externo e interno.
No transtorno dissociativo, há uma ruptura nesse processo de significação. A experiência traumática é tão avassaladora que não pode ser simbolizada, ou seja, ela não pode ser integrada ao fluxo de significados que compõem a identidade do sujeito. Assim, o trauma é expulso da cadeia simbólica e emerge como algo “estranho”, muitas vezes assumindo a forma de uma nova identidade ou de uma sensação de irrealidade.
O Tratamento Psicanalítico
Na terapia psicanalítica, o tratamento do transtorno dissociativo busca não apenas aliviar os sintomas, mas promover uma reintegração das partes dissociadas do sujeito. O terapeuta ajuda o paciente a acessar e confrontar gradualmente as experiências recalcadas, promovendo uma integração mais coesa do eu.
O processo envolve revisitar os traumas e conflitos que deram origem à dissociação, trazendo à consciência aquilo que foi separado e fragmentado. Com o tempo, o sujeito pode recuperar a continuidade de sua identidade e sua história emocional, tornando-se capaz de lidar com seus sentimentos e memórias de uma maneira menos destrutiva.
A Dissociação como um Caminho para a Cura
Sob a ótica da psicanálise, o transtorno dissociativo não é visto apenas como um distúrbio a ser tratado, mas como uma manifestação rica do inconsciente, revelando os esforços da mente para se proteger do insuportável. O trabalho terapêutico consiste em ajudar o sujeito a reunir os fragmentos do seu eu, integrando memórias, emoções e identidades dissociadas. Com isso, é possível restaurar a unidade psíquica, permitindo que o indivíduo lide com sua dor de maneira mais saudável e viva de forma mais plena.



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